Escritor norte-americano diz que jogos de computador desenvolvem habilidades diferentes dos livros. Mas como isso pode ser útil ao profissional de TI? Ouvimos executivos, profissionais de RH e acadêmicos. Confira o resultado
Por Patricia Azeredo
Jogos de computador e vídeo games são tidos como responsáveis por anestesiar a mente e isolar as pessoas. Isso é o que diz o senso comum. Mas o crítico cultural norte-americano Steven Johnson, em seu livro Surpreendente!, defende uma teoria polêmica: games estimulam habilidades que os livros são incapazes de alcançar.
Sondagem e investigação telescópica
Johnson define duas delas: a sondagem e a investigação telescópica. A primeira está relacionada ao fato de o usuário de games não saber tudo o que deve fazer quando entra no jogo. Ou seja, ele precisa sondar, investigar o ambiente para encontrar seus objetivos e as maneiras de cumpri-los.
Para o autor, isso significa estimular a capacidade de tomar decisões, resolver problemas e adaptar-se rapidamente a um novo ambiente – fatos cotidianos no mundo empresarial.
Já a investigação telescópica diz respeito à obrigatoriedade do jogador lidar com múltiplos objetivos simultaneamente. No ambiente do game, há um objetivo de longo prazo - o de terminar o jogo – e, para que isso aconteça, existem vários objetivos de curto prazo - as chamadas “fases”. Com isso, o usuário precisa planejar o tempo todo, tendo em mente os objetivos de curto e longo prazo a serem cumpridos: algo familiar a qualquer gerente.
Considerando a proximidade entre os jogos e o ambiente de TI, será que essas habilidades podem ser úteis para os executivos da área?
Ousadia e decisões rápidas
Para o Professor e Coordenador do Curso de Extensão em Desenvolvimento e Design de Jogos da PUC-RJ, Esteban Gonzales, o desafio é fundamental para tornar um jogo interessante ao usuário e isso ainda estimula uma postura pró-ativa por parte de quem joga.
“Quem tem a cybercultura tem mais segurança para transitar em ambientes novos. Fizemos uma pesquisa com trainees e descobrimos que quem joga é mais ousado, arrisca mais e tenta resolver as coisas muito rapidamente. Por outro lado, tende a ser menos reflexivo, não pensar muito antes de agir. Por isso não se pode dispensar a leitura em favor dos games – pondera.
Há também o caráter dinâmico, capaz de estimular habilidades fundamentais ao mercado de trabalho, segundo o Coordenador da Graduação em Design e Planejamento de Games da Faculdade Anhembi-Morumbi-SP, Delmar Gilsi Domingues.
“As regras dos jogos abordam duas capacidades humanas: a intelectual (jogos de estratégia) e a física, da agilidade no controle (games de ação). Em jogos de estratégia, o usuário é obrigado a organizar dados, planejar e liderar equipes, características úteis a qualquer executivo. O usuário de vídeo games toma decisões o tempo inteiro – acrescenta.
O Diretor-Executivo de Operações da Consultoria em RH 2Easy, Maurício Vichi defende o uso dos jogos de computador como forma de desenvolver habilidades necessárias ao profissional de TI, como raciocínio lógico, trabalho em equipe e liderança.
“Com a grande oferta de simuladores e jogos de estratégia, o profissional desenvolve o raciocínio com os games. Com o tempo, a metáfora de uma fuga, um resgate ou a busca de uma saída no ambiente virtual é transferida para o meio profissional. Já em ambientes de rede, alguns jogos favorecem o desenvolvimento do trabalho em equipe que, se for bem estruturada e estiver sob o aval de um líder inteligente, certamente vencerá uma partida na lan house e também no ambiente de trabalho – afirma.
Um bom exemplo disso pode ser encontrado na empresa de Segurança da Informação 3Elos, onde os jogos são utilizados como forma de reunir a equipe após o expediente.
“Nesse momento de socialização é possível identificar características da equipe que dificilmente seriam percebidas no ambiente de trabalho. E todos jogam, sem distinção de hierarquia - explica o Diretor de Desenvolvimento, Luiz Marques.
Nem todos os jogos são iguais
Se os jogos podem mesmo estimular habilidades úteis ao profissional de TI, principalmente aos executivos, então todos os games são positivos ou existem alguns mais adequados que outros?
O Professor Gonzales divide os jogos em três categorias: ação, relacionamentos (estratégia, RPGs e similares) e casuais (como paciência ou os jogos em Flash presentes na Internet). Para ele, cada um tem suas peculiaridades.
“Eles trabalham habilidades diferentes. Os jogos de estratégia ensinam raciocínio lógico, de liderança. Os que menos ensinam são os casuais e de ação – diz.
O Game Designer e Editor do site Tilt, Renato Degiovani lembra que os games comerciais não são pensados visando o aprendizado e recomenda uma certa cautela.
“Não se pode perder a noção de que jogo é entretenimento. Se ele pode ser usado para mais alguma coisa, como treinamento específico ou aprendizado de determinados conceitos, ótimo. Mas na prática, não creio que as coisas funcionem tão bem assim – acrescenta.
Jogos estimulam, mas não criam habilidades
O Gerente de Produtos da Consultoria de RH Conquest One, Bruno Santos não crê no jogo como criador de habilidades, mas consegue ver neles um lado positivo.
“Os jogos atuam de forma indireta. Não criando, mas melhorando habilidades já existentes em um profissional de TI. Sobre os profissionais serem menos reflexivos, acho até o contrário: os jogos de estratégia podem ajudar o executivo a pensar mais. Além disso, certas decisões exigem rapidez. Não vejo nada de negativo nesse aspecto – argumenta.
Renato Degiovani detecta um certo exagero nas valorização dos jogos de computador e vê neles apenas um estímulo a habilidades específicas, que nem sempre se transformariam em algo útil no ambiente profissional.
“Por exemplo, treinar liderança. Games de RPG desenvolvem a liderança para aquele jogo. Até acredito que alguma coisa seja incorporada na sua personalidade, mas daí a ser o determinante é forçar a barra. Se o jogo facilita essa absorção, ótimo. Porém, do mesmo modo que assistir filmes de guerra não preparam a pessoa para ser um soldado, jogar SimCity não necessariamente formará um bom administrador – afirma.
Ao se falar de jogos, não se pode esquecer do risco de isolamento. O Professor Gonzales cita exemplos de medidas tomadas pela indústria de games a esse respeito.
“A Nintendo tem um sistema através do qual o pai pode programar horários para a criança jogar no console. Existem leis sendo criadas na Coréia dizendo quanto um garoto pode jogar por dia. O game isola as pessoas. Mesmo nos jogos multiplayer on-line, em que elas se relacionam entre si, não é um relacionamento profundo – considera.
Jogos e TI
O Gerente de TI da multinacional NSK, Alexandre Jurca vê a sondagem e a investigação telescópica como fundamentais para o profissional de tecnologia de informação.
“Em TI, o ciclo de trabalho não é contínuo, ao contrário da contabilidade ou indústria. O dia de amanhã é sempre uma surpresa. As questões da adaptação a um ambiente novo e de lidar com vários objetivos são importantes. Além disso, o gestor de TI tem que tomar decisões imediatas sem perder a capacidade de planejar – observa.
Para o Professor Domingues, os jogos são perfeitos para gestores de TI, pois trata-se de um tipo de profissional que geralmente já tem afinidade por esta forma de entretenimento.
“Nesse sentido, os games são excelentes, pois trabalham a iniciativa, a tomada de decisão e o raciocínio. Na equação final, há mais benefícios do que malefícios para o executivo – diz.
Games recomendados
Se jogar é bom para o executivo, então quais games seriam recomendados para que o profissional possa se divertir e exercitar habilidades úteis ao seu trabalho? O Professor e Coordenador do Curso de Extensão em Desenvolvimento e Design de Jogos da PUC-RJ, Esteban Gonzales cita alguns.
“No Rome: Total War o jogador resolve problemas com muitas variáveis de forma rápida. Já World of Warcraft, um dos jogos on-line mais complexos, trabalha com a formação de times para resolver problemas, abordando a colaboração. E Civilization 3 exige reflexão e capacidade de negociação. A postura pró-ativa é trabalhada em todos eles – afirma.
E você, o que acha? Jogos são bons ou ruins para auxiliar no desenvolvimento de executivos de TI? Dê sua opinião, conte sua experiência e veja links para games citados aqui no blog TI Master.
Matéria original
http://www.timaster.com.br/revista/materias/main_materia.asp?codigo=1096
Fonte: TI Master, março 2006